Os actantes que estão entre nós: Quando os não-conformistas se encontram e a transição do trabalho deixa de ser futuro para virar presente

No texto anterior, falei do Claude/Cowork como o primeiro dos três actantes que listei: uma IA que deixa de apenas responder e passa a trabalhar com arquivos, contexto, skills e execução. A pergunta que ficou no ar era simples: o que acontece quando a escola percebe que a IA já não é só uma ferramenta de consulta, mas uma infraestrutura de produção?

Agora, o segundo actante desloca a pergunta para outro lugar.

Se o Claude/Cowork mostra como o conhecimento profissional pode virar processo executável, o Lovable mostra como uma ideia pode virar produto digital. E isso muda completamente a fronteira entre imaginar uma solução e colocá-la de pé.

Durante anos, construir um software foi privilégio de quem sabia programar, de quem tinha equipe técnica ou de quem podia pagar caro por desenvolvimento. Uma coordenadora podia ter uma ideia excelente para acompanhar alunos em risco, uma diretora podia imaginar um sistema simples para organizar eventos, uma professora podia enxergar uma ferramenta melhor para orientar estudos — mas quase sempre havia uma barreira: “precisamos falar com o TI”, “isso custa muito”, “não temos desenvolvedor”, “não dá para fazer agora”.

O Lovable entra justamente nesse ponto da rede. Ele reduz a distância entre intenção e protótipo, entre problema percebido e solução testável, entre ideia pedagógica e produto funcional.

Por isso, ele importa para a educação. Não porque toda escola precise virar empresa de software, mas porque todo educador passa a operar em um mundo no qual criar ferramentas digitais deixou de ser um território exclusivo dos programadores.

No primeiro texto, a pergunta era: a escola está formando alunos para decorar tudo ou para acionar o conhecimento certo na hora certa?

Neste segundo texto, a pergunta avança: a escola está formando alunos apenas para usar produtos digitais prontos ou para imaginar, descrever, testar e construir os próprios produtos?

Lovable é, em uma frase, uma plataforma sueca de vibe coding que permite a qualquer pessoa, sem saber programar, descrever em linguagem natural o aplicativo web que quer construir — front-end, back-end e banco de dados — e ver isso virar realidade em minutos, com código exportável e implantação automática.

O que é vibe coding e quem inventou?

Antes de se aprofundar em Lovable, preciso falar um pouco amis sobre o termo vibe coding, que virou jargão tão rapidamente e que muita gente usa sem saber de onde veio nem o que ele queria dizer originalmente.

Quem batizou esse jeito de programar foi Andrej Karpathy. Karpathy é um dos grandes gurus vivos da inteligência artificial. Eslovaco-canadense, fez doutorado em Stanford foi um dos fundadores da OpenAI e desde 2024 toca a Eureka Labs, uma startup que está tentando reinventar a educação técnica com IA. Além disso ele disponibiliza cursos de desenvolvimento de IAs gratuitos no YouTube Os cursos gratuitos que ele publica no YouTube. Karpathy é, em palavras simples, uma das poucas pessoas no mundo que tem tanto a credibilidade técnica de quem ajudou a construir essa tecnologia desde dentro, quanto o talento didático de quem sabe explicá-la para quem está chegando agora.

Em 2 de fevereiro de 2025, Karpathy postou no Twitter um texto curto que entrou para a história. Cabe aqui em paráfrase: “existe um novo tipo de programação, ele disse, que vou chamar de vibe coding — você se entrega totalmente à intuição (à vibe), abraça o crescimento exponencial dos modelos, e esquece que o código sequer existe. Você vê, fala, executa e copia-cola, e na maior parte das vezes funciona. Quando aparece um erro, copia-cola o erro de volta e na maioria das vezes o agente conserta. O código cresce além da sua compreensão imediata, e tudo bem.”

A frase pegou. Em poucos meses, vibe coding virou Palavra do Ano de 2025 pelo Collins English Dictionary. Karpathy já tinha plantado a semente desse jeito de pensar em 2023, quando escreveu uma frase que também viralizou: “a nova linguagem de programação mais quente do momento é o inglês”. Naquele momento parecia uma provocação. Em 2025, virou descrição técnica precisa do que está acontecendo na engenharia de software do mundo inteiro.

Vale dizer: o próprio Karpathy alertou desde a primeira postagem que esse modo de programar era melhor para “projetos de fim de semana” — protótipos, experimentos, ideias rápidas — não para sistemas críticos em produção. Houve quem confundisse vibe coding com “deixar a IA escrever qualquer coisa”, e isso gerou casos famosos de prejuízo (códigos hackeados, vulnerabilidades, banco de dados apagado por um agente do Replit que ignorou instruções explícitas). E é dentro dessa onda — do vibe coding como movimento cultural e técnico — que a Lovable foi construída.

Por que isso muda o jogo para não-programadores?

Volte um momento ao texto Zona Proximal de Adoção. Lembra do exemplo que usei lá, a coordenadora pedagógica que tem a ideia clara de um sistema para registrar acompanhamento de alunos em risco, mas que esbarra na realidade de que a TI da escola “vai olhar quando der” ou que “um aplicativo desses custa R$ 200 mil”? O Lovable é a tradução tecnológica daquele momento — é a ferramenta que coloca o desenvolvimento de software dentro da zona proximal de uma pessoa que antes estava do lado de fora.

A barreira entre ter uma ideia e ter um produto digital funcional despencou. Onde antes você precisava de uma equipe técnica, agora você precisa de clareza sobre o que quer construir, vocabulário para descrever isso, e tempo para iterar a conversa com a IA. As habilidades que ganham valor são: pensamento de produto, clareza de comunicação, senso estético, e — paradoxalmente — exatamente as habilidades que uma boa escola sempre quis desenvolver.

Empresa e Fundadores

A Lovable foi fundada na Suécia em 2023 por Anton Osika e Fabian Hedin. Antes da Lovable, Osika se formou em física, foi o primeiro funcionário da Sana Labs (uma unicórnio sueca de IA voltada para aprendizagem), e cofundou a Depict.ai (uma startup de IA para e-commerce, da qual foi CTO até o final de 2023). O incômodo que o levou à Lovable foi sua intuição clara de que existia muita gente com boas ideias que nunca conseguia tirá-las do papel por falta de desenvolvedor.

A história curiosa, e instrutiva, é como a Lovable nasceu: Osika tinha um projeto pessoal antes, o GPT Engineer, uma ferramenta de IA para automatizar criação de software. Publicou no GitHub e viralizou entre desenvolvedores. Foi essa viralização que abriu os olhos dele para o mercado. Em outubro de 2023 saiu da Depict e fundou a Lovable; a primeira tentativa não pegou; o relançamento em novembro de 2024 disparou — em um mês a empresa faturou US$ 5 milhões, em oito meses bateu US$ 100 milhões em receita recorrente anual, e em julho de 2025 levantou uma rodada Série A de US$ 200 milhões com avaliação de US$ 1,8 bilhão. Tudo isso com cerca de 45 funcionários e 2,3 milhões de usuários ativos. Em fevereiro de 2026, a empresa anunciou ter atingido US$ 400 milhões em receita anual.

Para você dimensionar o que isso significa: o próprio Osika divulgou ter sido “a startup de crescimento mais rápido da história da Europa”, e os CEOs e cofundadores de empresas como Klarna, Slack e HubSpot investiram pessoalmente na rodada.

Comunidade Lovable no Brasil

O Brasil entrou cedo nessa onda. A comunidade Lovable Brasil é uma das mais ativas do mundo, e tem como embaixador oficial da empresa o Alexandre Messina, também Enterprise GTM Partner da Lovable no país, eleito MIT Innovator Under 35 em IA e professor convidado na Singularity e na Faculdade Exame.

Eu mesmo participei, há algumas semanas, da primeira Vibe & Run da comunidade, uma corrida em que tínhamos uma hora para correr fisicamente e, durante essa hora, construir um webapp inteiro no Lovable usando o celular. Pode parecer brincadeira, e em parte é, mas é exatamente o tipo de brincadeira que mostra como a barreira mudou de lugar: você não está mais sentado em frente a uma IDE com dois monitores, escrevendo código em silêncio. Você está correndo, conversando com a IA pelo celular, descrevendo o que quer ver na tela, ajustando e publicando, tudo isso fazendo o seu split no Strava ao mesmo tempo. Quem participou comigo são, em boa parte, pessoas que não se chamam de desenvolvedoras. São fundadoras, gestoras de produto, profissionais de marketing, designers, educadoras. E todas saíram de lá com um webapp publicado.

A estratégia da Lovable é digna de nota e, eu acho, deliberada: eles lançam uma novidade toda semana, e cada novidade parece responder com precisão a algo que a comunidade estava precisando muito. Um exemplo recente, anunciado pelo próprio Messina no LinkedIn: conexão com gateway de pagamentos em menos de um minuto, com VAT, impostos e conversão de moeda resolvidos automaticamente para mais de 200 países, sem sair da conversa com a IA. Para quem está tentando lançar um produto digital partindo do zero, isso é a diferença entre conseguir cobrar e não conseguir cobrar; entre ter um projeto e ter um negócio. E o anúncio veio exatamente quando a comunidade estava em peso pedindo essa funcionalidade.

Há aqui uma lição que escolas podem se apropriar: uma empresa de produto que escuta a comunidade todos os dias, e que entrega visivelmente todos os dias, cria uma rede de defensores antes mesmo de precisar contratar marketing.

Por que isso importa para a educação?

Tem um caso brasileiro emblemático que vale citar: uma grande empresa brasileira de tecnologia educacional usou o Lovable para criar um aplicativo que arrecadou US$ 3 milhões em apenas 48 horas — é o case real mais bem-sucedido da Lovable no mundo, segundo a própria empresa. O case é da QConcursos. Pense no que isso significa: uma EdTech brasileira, usando uma ferramenta de vibe coding, faturou em dois dias o equivalente à receita anual de várias escolas particulares brasileiras de porte médio.

Para a escola, a leitura que faço é dupla. No nível de negócio, o Lovable abre a possibilidade de a coordenação ou a diretoria de tecnologia construir, internamente, em dias, ferramentas que antes ficavam na fila do TI: portal do aluno, sistema interno de acompanhamento, plataforma de eventos, ferramenta de pesquisa interna. No nível pedagógico, o Lovable é objeto de estudo: estudantes do ensino médio que aprendem a construir aplicações com IA estão desenvolvendo exatamente as competências de produto que o mercado vai cobrar nos próximos anos, e que dificilmente são ensinadas em aulas de “informática”.

Transições do trabalho: por que não estou falando de futuro?

O Lovable, portanto, não é apenas uma plataforma para “fazer aplicativos sem programar”. Ele é um actante porque muda a rede entre ideia, linguagem e produto. Muda quem pode construir. Muda o tempo necessário para testar uma solução. Muda o tipo de competência que passa a ter valor.

Quando a barreira técnica cai, o que sobra não é a ausência de conhecimento. Pelo contrário: sobra a necessidade de pensar melhor.

Para criar bem com Lovable, não basta escrever qualquer pedido. É preciso entender o problema, desenhar fluxo, antecipar o usuário, organizar informações, tomar decisões de produto, revisar o resultado, testar, corrigir, publicar e melhorar. Ou seja: as habilidades centrais deixam de ser apenas técnicas e passam a ser cognitivas, comunicacionais, estéticas e estratégicas.

E é por isso que eu evito chamar isso de “futuro do trabalho”. O termo futuro do trabalho funciona como uma muleta retórica: empurra para depois algo que já está acontecendo agora. Prefiro falar em transições do trabalho, no plural, e no presente contínuo.

A primeira transição é no conteúdo do trabalho. Atividades que antes exigiam equipe técnica, orçamento, prazo e fila de desenvolvimento agora começam a colapsar para minutos ou horas. Criar um protótipo, testar uma interface, montar um sistema simples, publicar uma aplicação, validar uma ideia com usuários: nada disso desapareceu, mas tudo isso está sendo redefinido em torno de outras competências. O valor passa a estar menos em executar passo a passo e mais em orquestrar, julgar, decidir e validar.

A segunda transição é no lugar do trabalho. O desenvolvimento de produto digital já não acontece apenas na IDE, diante de dois monitores, com uma equipe de engenharia sentada em silêncio. Acontece em uma conversa. Acontece pelo celular. Acontece no meio de uma corrida, em uma reunião, em uma troca de mensagens, em uma comunidade. O Lovable mostra que construir software pode deixar de ser um ato isolado de programação e virar um ato conversacional de criação.

A terceira transição, a mais profunda, é nos papéis profissionais. A maioria dos estudantes que estamos formando hoje vai trabalhar em funções e profissões que ainda nem existem. E os que forem trabalhar em funções que já existem vão fazer isso de um jeito tão diferente que a comparação com o profissional de hoje será quase injusta. O verbo pode até ser o mesmo: criar, ensinar, vender, atender, avaliar, coordenar. Mas o modo de fazer será outro.

Se a memorização perdeu valor, o que ganhou valor?

Se o teste tradicional está cada vez mais defasado para medir competências em movimento, como avaliamos criatividade, julgamento, clareza, colaboração e capacidade de construir?

Se a Zona Proximal de Adoção da escola está em movimento permanente, como a liderança sustenta uma leitura de prontidão sem se perder no novo a cada semana?

Se ferramentas como o Lovable permitem que alunos transformem ideias em produtos digitais, a escola vai tratar isso como distração tecnológica ou como uma nova alfabetização?

A resposta honesta é: não sabemos tudo. Mas sabemos uma coisa. Continuar fazendo o que sempre fizemos é a única coisa que sabemos que não vai funcionar.

O Lovable torna concreta uma promessa que a escola sempre fez em abstrato: formar pessoas capazes de resolver problemas, comunicar ideias, criar soluções, revisar hipóteses e aprender com tentativa e erro. A diferença é que agora essas competências podem virar produto, interface, sistema, protótipo, aplicativo. Podem sair do papel.

Se o Claude/Cowork mostrou que o conhecimento profissional pode virar skill, o Lovable mostra que a imaginação pode virar protótipo. E, no próximo texto, o OpenClaw amplia ainda mais esse movimento: leva agentes autônomos para dentro do computador, do WhatsApp e dos fluxos cotidianos de trabalho.

A escola que prepara para um mundo conhecido vai estar sempre defasada. A escola que prepara para um mundo em transição, povoado por actantes que ainda não nomeamos, tem chance de chegar no lugar certo na hora certa.

É justamente por isso que a Academia Primeira Escolha vai conduzir duas formações para quem quer entender essa transição com método:

18 de junho — Avaliação na era da IA: Saiba mais
13 de agosto — Liderança, gestão e inovação educacional: Saiba mais

Para participar, acesse o link da bio e garanta sua vaga.

Vagas limitadas!