Quem tem medo de errar?

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Muito já se disse, em Educação, sobre o valor pedagógico do erro. Errar é parte do aprendizado e constitui rica fonte de informação sobre o pensamento dos alunos: o modo como alguém erra revela suas hipóteses ocultas sobre determinados temas. Além disso, é difícil imaginar que possa haver pensamento criativo sem que o risco de cometer erros seja corajosamente assumido.

Quais são as hipóteses por trás destes graciosos "erros"?

A verdade, porém, é que esses entendimentos – mesmo quando existem – têm impacto ainda muito limitado na forma como se lida com o erro na escola. Educadores, pais e alunos, com frequência, temem os erros e procuram evitá-los de várias formas, muitas vezes à custa do próprio aprendizado: muitos alunos optam por omitir um erro em vez de expô-lo para aprender com ele; muitos professores (e pais) treinam os “caminhos certos” com os alunos para não vê-los “tropeçar” nas dificuldades inerentes ao enfrentamento de desafios realmente novos.

Essa atmosfera de temor ao erro é selada por práticas de avaliação nas quais prevalece a lógica somativa, em que as sínteses da aprendizagem servem principalmente à hierarquização dos desempenhos. Nessa lógica, os erros são usualmente identificados com o fracasso e não são colocados à serviço da aprendizagem, por meio de devolutivas descritivas que possam ajudar os alunos a avançar.

Mas por que é assim se já há tanta evidência sobre o valor do erro para os processos de aprendizagem?

Em primeiro lugar, é claro, ainda há muito desconhecimento dessas evidências. Nesse sentido, é preciso fortalecer a profissionalização dos educadores, para que tenham amplo conhecimento das pesquisas em Educação e áreas correlatas. Mas há também um fator mais profundo que interfere na imobilidade do tratamento dado ao erro na escola,
algo que é da ordem da mentalidade – que molda e é moldada pela cultura. E é disso que vamos falar um pouco mais neste post.

Carol Dweck, professora da Universidade de Stanford, na área de Psicologia, ao longo de décadas de pesquisa, vem esclarecendo alguns aspectos da atitude mental com que encaramos o mundo e, mais especificamente, a nossa própria capacidade de aprender. A essa atitude mental ou mentalidade ela dá o nome de mindset (que é o título de um de seus livros mais famosos, traduzido para diversas línguas, inclusive para o português). Um mindset não é necessariamente consciente, funcionando mais como uma crença ou visão de mundo (mais ou menos) implícita que acaba por interferir no comportamento das pessoas com relação ao erro, ao sucesso, ao fracasso, à motivação para a aprendizagem.

Dweck nos explica que existem basicamente dois mindsets: há pessoas que acreditam que, mesmo que possam aprender coisas, não podem mudar seu nível básico de inteligência ou aptidão para algo; e outras pessoas que acreditam que, por meio do esforço, podem se tornar cada vez mais inteligentes ou competentes. Para os do primeiro grupo – os de mindset fixo – todos os acontecimentos serão interpretados como confirmações ou refutações de sua
capacidade inata. Assim, é claro, o erro é tomado como uma evidência de que são menos inteligentes; seu impacto na autoconfiança é, portanto, terrível. Para os do segundo grupo – os de mindset de crescimento – as dificuldades são vistas como chances de aprender e não representam uma refutação de que sejam capazes ou inteligentes. Assim, os erros são tomados como indícios de que estão enfrentando oportunidades de crescimento (ainda que, por vezes, psicologicamente dolorosas e desconfortáveis).

Os fatores que produzem um dado mindset são diversos, mas, entre eles, destacam-se as mensagens acerca do talento, das capacidades, dos erros e da aprendizagem que recebemos do meio em que vivemos. Segundo Dweck,
“[…] cada palavra ou ação manda uma mensagem. Diz às crianças – ou aos alunos, ou aos atletas – como devem pensar a respeito de si mesmos. Pode ser uma mensagem de mindset fixo, que diz: você tem características permanentes e eu as estou avaliando. Ou pode ser uma mensagem de mindset de crescimento, que diz: você é uma pessoa em desenvolvimento e eu tenho interesse em seu desenvolvimento.”

Na escola, por exemplo, os mindsets dos próprios professores acabam influenciando o tipo de mensagem que transmitem aos alunos. Mesmo mensagens positivas podem se transformar em mensagens de que as capacidades são permanentes e, a longo prazo, o efeito pode ser o inverso do desejado. Vejamos:

- “Você aprendeu isso tão depressa. Você é tão inteligente!” – se não se aprende rápido, então não se é inteligente?
- “Você é brilhante! Tirou dez sem nem ter estudado!” – se é preciso esforço, então não se é brilhante?
- “Puxa, você tem talento para isso. Não errou nada.” – então erro é falta de talento?

Puxa! Não podemos fazer elogios? Sim, podemos. Mas estaremos ajudando os alunos se elogiarmos o esforço, a escolha de boas estratégias, a persistência, o engajamento…

- “Adorei o modo como você aprendeu isso! Sua estratégia de estudo foi muito boa.” – há muitos modos de aprender, alguns funcionam melhor em alguns casos.
- “Você foi muito corajosa por ter escolhido esse tema desafiador. Vai aprender muito ao estudá-lo!” – o “prêmio” é aprender.

Porém, é claro que esse tipo de elogio vai soar artificialmente se não for sincero e compatível com as demais mensagens que veiculamos – às vezes de forma inconsciente.
Dessa forma, é de extrema importância que os educadores reflitam sobre seu próprio mindset e eventualmente invistam em sua real transformação, se desejam formar alunos que confiem em sua própria capacidade de aprender, valorizando o esforço e encarando os erros de forma mais positiva. 

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Aline dos Reis Matheus 
Diretora Educacional Academia Primeira Escolha

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